CRITICAR RONALDO É FÁCIL, ANALISAR PORTUGAL É MAIS DIFÍCIL: O QUE FALHOU CONTRA O CONGO?

Sim, foi um jogo muito mal conseguido e uma exibição bastante fraca. Basta olhar para as redes sociais, para a imprensa e para muitos comentários para perceber que, mais uma vez, a culpa parece ser exclusivamente do Cristiano Ronaldo. Lá está, chama-se Ronaldo. Tenho até a sensação de que, quando deixar de jogar, continuará a ser culpado por muitos dos problemas da seleção.

O que mais me entristeceu neste jogo não foi ver um Ronaldo apagado.O que me preocupou verdadeiramente foi o desempenho coletivo. Fala-se constantemente de jogadores de classe mundial, atletas que representam alguns dos melhores clubes do planeta. Muitos afirmam até que esta é a melhor seleção portuguesa de sempre, algo com que não concordo, embora respeite quem pense dessa forma.

Porque ter jogadores nos melhores clubes do mundo não é algo exclusivo de Portugal. Hoje, muitas seleções têm atletas ao mais alto nível, espalhados pelos maiores campeonatos e equipas europeias. A questão não é onde jogam, mas sim a diferença que conseguem fazer quando vestem a camisola da seleção.

É por isso que tenho alguma dificuldade em aceitar a ideia de que esta é, sem discussão, a melhor geração portuguesa de sempre. Respeito quem o defende, mas olho para outras épocas da nossa seleção e vejo equipas que, para mim, tinham mais personalidade, mais liderança, mais criatividade e mais capacidade para decidir jogos importantes. Não se trata apenas de comparar nomes ou posições. Trata-se de perceber o impacto que esses jogadores tinham dentro de campo. Havia uma sensação de que a equipa tinha referências claras, jogadores capazes de assumir o jogo nos momentos difíceis e de elevar o nível coletivo da seleção.

Hoje fala-se muito do valor de mercado, dos clubes onde os jogadores atuam e do estatuto internacional que possuem. Mas quando Portugal faz exibições como esta, contra adversários teoricamente inferiores, fico com a sensação de que existe uma diferença entre o talento que lhes é atribuído e aquilo que realmente mostram em campo pela seleção.

Contra o Congo, vi uma equipa adormecida, sem ideias, previsível e presa nos mesmos movimentos. Muito passe para o lado, muito passe para trás, muita posse de bola sem objetividade. Centenas de passes sem produtividade real. Chegámos poucas vezes com verdadeiro perigo à área adversária. Houve domínio territorial e estatístico, mas pouca criação de oportunidades e pouca capacidade para desequilibrar.

E, no final, a conclusão para muitos é sempre a mesma, a culpa é do Cristiano Ronaldo.
Eu próprio concordo que Ronaldo não deve jogar sempre os 90 minutos e que a gestão do seu tempo de jogo deve ser feita de forma inteligente. Concordo que, nesta fase da carreira, há momentos em que a equipa pode beneficiar de outras soluções. Mas transformar todos os problemas da seleção numa questão de Ronaldo começa a tornar-se um argumento fácil, repetitivo e até algo ridículo.
O que mais me custa, enquanto português, é a sensação de que algumas pessoas parecem estar mais à espera de um mau resultado para poder criticar do que propriamente para apoiar a equipa. Parece que certos adeptos entram no jogo já preparados para apontar o dedo ao mesmo jogador, independentemente do que aconteça em campo. Se Portugal ganha, fala-se pouco. Se Portugal perde ou joga mal, a culpa já está escolhida antes do apito inicial.
Dá-me, por vezes, a ideia de que uma percentagem dos portugueses parece desejar que as coisas corram mal à seleção apenas para depois poder descarregar frustrações e alimentar determinadas narrativas. E a narrativa mais fácil é sempre a mesma, Cristiano Ronaldo.

Mas se esta seleção é tão extraordinária como muitos afirmam, então a responsabilidade não pode recair sempre sobre um único jogador. Se Ronaldo é, como alguns dizem, apenas um "pino" na área, então os restantes dez jogadores, estrelas de nível mundial, deveriam ter sido capazes de assumir o jogo e resolver os problemas da equipa. Os grandes jogadores aparecem, pedem a bola, assumem riscos, criam desequilíbrios e carregam a equipa quando as coisas não estão a correr bem.
Sinceramente, eu não vi esse estrelato em campo. Vi uma equipa sem inspiração, sem intensidade, sem criatividade e sem capacidade para fazer a diferença. E por isso, quando analiso este jogo, vejo uma responsabilidade coletiva muito maior do que a responsabilidade individual de um único jogador.

Criticar o Ronaldo é legítimo. Criticar qualquer jogador é legítimo. O que não me parece legítimo é transformar um desaire coletivo num julgamento permanente da mesma pessoa. O futebol continua a ser um jogo de equipa. E quando uma equipa inteira joga abaixo do seu nível, a responsabilidade tem de ser repartida por todos, jogadores, treinador e estrutura. Reduzir tudo ao nome de Cristiano Ronaldo não é análise, é apenas procurar o culpado mais fácil.

E, por fim, apesar de todas as críticas que faço a esta exibição, continuo a ser otimista. Sou assim por natureza. Não vou passar de um jogo mau para a conclusão de que está tudo perdido ou de que esta seleção não tem condições para fazer um bom Mundial.

Acredito que Portugal vai melhorar já nos próximos jogos. Não porque considere esta a melhor seleção portuguesa de sempre, nem porque ache que temos uma equipa muito acima das restantes, mas porque reconheço qualidade suficiente para apresentar muito mais do que aquilo que vimos neste encontro.

Ao mesmo tempo, também convém manter algum equilíbrio nas análises. Portugal tem grandes jogadores, mas não é a única seleção com grandes jogadores. As grandes seleções do mundo também contam com atletas de topo, também têm ambições elevadas e também enfrentam dificuldades. Basta olhar para vários jogos deste torneio para perceber que ninguém ganha apenas pelo nome, pelo valor de mercado ou pelo clube onde os jogadores atuam.

O futebol continua a decidir-se dentro de campo. E é aí que Portugal terá de dar uma resposta. Não através de discursos, estatísticas ou rótulos de "melhor geração de sempre", mas sim através das exibições.

Por isso, apesar da desilusão com este jogo, mantenho a confiança. Espero uma equipa mais intensa, mais corajosa e mais objetiva nos próximos encontros. E, acima de tudo, espero ver uma reação coletiva. Porque quando uma equipa joga mal, todos têm responsabilidades. E quando uma equipa reage, também é o grupo inteiro que merece o reconhecimento.

Eu continuarei a apoiar a seleção, como sempre. Nos bons momentos e nos maus. Porque ser adepto não é aparecer apenas para criticar quando as coisas correm mal, é também acreditar que a resposta pode estar já ao virar da esquina.
Por:Álvaro Amorim

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